“No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. Tinha uma pedra.” Carlos Drummond de Andrade jamais imaginou que, décadas depois, seu verso imortal ganharia uma versão tão… orgânica. No Parque dos Poderes, onde ciclistas e pedestres buscam lazer, saúde e contato com a natureza, a “pedra” do caminho surge em forma de fezes de cavalo, “estrategicamente” posicionadas no meio da passagem.
A diferença é que, no poema, o obstáculo era simbólico. Aqui, ele é concreto, aromático e escorregadio.
Curiosamente, há placas orientando tutores de pets a recolherem as fezes de seus cães — um gesto de cidadania, higiene e respeito coletivo. Mas quando o autor do “presente” é um cavalo, utilizado por equipes da cavalaria da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul em ações ostensivas e preventivas, a pergunta surge inevitável: quem recolhe essa pedra do caminho?
O ciclista desvia. O pedestre reclama. E a “pedra” permanece, firme, resiliente, quase poética — não fosse o risco de queda e o cheiro pouco literário.
A foto, registrada no domingo (1º) por um leitor e enviada ao Diário Sul-mato-grossense, expõe um detalhe aparentemente pequeno, mas que revela um debate maior: se a regra vale para todos, vale também para o poder público. Afinal, cidadania não deveria ser seletiva — nem conforme o tamanho do animal.
Drummond escreveu que nunca se esqueceria da pedra no meio do caminho. Quem passou por ali neste domingo, assim como todos os finais de semana, certamente também não.
A reportagem tentou contato com a Prefeitura do Parque dos Poderes nesta segunda-feira, mas as ligações não foram atendidas. O espaço segue aberto para posicionamento.
