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Mulher forte que desafiou padrões: políticos e familiares destacam o legado de Nelly Bacha

Uma mulher determinada, combativa, forte, corajosa, solidária, que lutava pela educação e que rompeu barreiras. Políticos e familiares despediram-se da ex-vereadora e ex-prefeita de Campo Grande Nelly Bacha, que faleceu na noite de quarta-feira, dia 8, aos 84 anos. O velório aconteceu no Plenário da Casa de Leis, um pedido feito pela Professora Nelly, como era conhecida. Em respeito, o presidente da Casa de Leis, vereador Epaminondas Neto, o Papy, decretou luto oficial de três dias. A sessão ordinária e a Audiência Pública foram canceladas.

A professora Nelly Bacha foi uma das mulheres pioneiras da política em Campo Grande. Foi vereadora da Câmara Municipal de 1973 a 1988. Presidiu a Casa de Leis nos anos de 1983 e 1984. Neste período, em 1983, durante pouco mais de dois meses, assumiu a prefeitura da Capital, tornando-se a primeira mulher prefeita de Campo Grande.

O ex-governador de Mato Grosso do Sul André Puccinelli recordou que Nelly Bacha foi uma professora brilhante, muito reconhecida. Ele conviveu com a Professora Nelly quando foi secretário estadual de Saúde. “Ela sempre participou dos embates e sempre foi uma grande partidária. A Nelly falava: André, está faltando remédio, recorda”, recorda. Sobre o perfil da ex-vereadora, Puccinelli destacou que “era determinada, durona, não levava mal recado para casa não”.

Na legislatura de 1983 a 1988, Waldemir Moka foi vereador na Câmara, ao lado de Nelly Bacha. Ele foi vice-presidente da Casa de Leis, inclusive assumindo interinamente a presidência quando Nelly Bacha comandou a prefeitura. “Ela era muito forte, ousada e fazia valer a prerrogativa como vereadora e prefeita. Nelly tem um lugar na história de Campo Grande, principalmente em relação a romper as barreiras, muito mais difíceis que atualmente”. Recordou que Nelly Bacha sempre foi filiada ao MDB e foi bem votada nas eleições diretas, no período após a ditadura.

A vereadora Luiza Ribeiro disse que a Nelly sempre foi referência e apoiou várias lutas no campo social. “Sempre foi uma mulher à frente do seu tempo, sofreu preconceito, como muitas de nós, mulheres na política, fortes, sindicalistas, organizadora de partido político”, afirmou. Ela recordou que o MDB recebia toda a militância de esquerda na época. “Ela tem um legado na organização sindical dos trabalhadores da educação e legado na política partidária, uma militante da resistência do golpe militar, pela democracia”.

Sempre acompanhando os cuidados com Nelly Bacha, a cunhada Marina Alves Rodrigues Bacha recordou o legado da ex-vereadora.  “Foi uma mulher muito forte, que deixa um legado que temos que nos mover na vida, com coragem, luta e dedicação. Foi uma mulher determinada, sempre nos dando ânimo. Deixa ainda um legado de solidariedade, sempre incentivando pessoas a estudarem”, afirmou. Ela destacou ainda que na época de vereadora, Nelly Bacha criou clubes de mães para incentivar que os filhos permanecessem na escola. “Ela sempre dizia que a educação move o mundo. Deixa um legado de trabalho, coragem, luta e para não desistir dos seus sonhos”.

Marina Bacha acrescentou que a Professora Nelly era um exemplo não só para os familiares, mas para toda a sociedade. “Deixou um legado de quebra de paradigmas, numa época em que era difícil a presença das mulheres, um universo muito masculino. Ela nos mostra que as mulheres têm que participar da política”.

O vereador Carlos Augusto Borges, o Carlão, primeiro-secretário da Casa de Leis, trabalhou como assessor do então ex-vereador Antônio Braga no período em que Nelly Bacha presidia a Câmara. “Ela foi muito atuante, representava as classes mais simples. Foi combativa, representando nosso Legislativo. Usava muito a Tribuna, ia muito nos bairros. Deixou um legado para a sociedade campo-grandense”, disse.

O vereador Epaminondas Neto, o Papy, presidente da Câmara Municipal, ressaltou as contribuições da Professora Nelly Bacha na política e na educação. “É importante que as gerações conheçam a história de Nelly Bacha, seu legado para as mulheres na política, enfrentando barreiras. Ela tem sua marca importante na história de Campo Grande e na história da Câmara de Vereadores”, disse. O velório na Câmara atende a um último desejo de Nelly Bacha. “Cancelamos a sessão, a Audiência porque sabemos da importância de atender esse último desejo”.

História – Nas últimas semanas, a TV Câmara começou a produzir um vídeo resgatando a história de Nelly Bacha, por meio do programa Memórias da Câmara, com uma edição especial sobre as ex-vereadoras. O presidente Papy enfatizou a importância desse resgate feito pela Casa de Leis, para que todos tenham a oportunidade de reviver a história e contribuições nas transformações da cidade.

Nelly tinha Parkison há cerca de oito anos e, mais recentemente, estava acamada, sempre acompanhada por cuidadoras. Sua cunhada Marina Bacha a acompanhava nos cuidados, em consultas médicas e internações. Nelly Bacha foi internada na terça-feira e faleceu na quarta-feira com insuficiência respiratória.

Professora Nelly morava na mesma casa há cerca de 60 anos, na Rua 15 de Novembro, bem no Centro de Campo Grande. Mesmo com avanço da doença, que resultou em dificuldades motoras, ela continuava lúcida e sempre relembrava dos episódios da sua carreira política. Gostava de assistir jornal todos os dias. Por conta de dificuldades auditivas, ela lia as legendas. Nas conversas com visitantes, também era usada a transcrição de mensagens.

Biografia – Nelly Bacha nasceu em Corumbá no dia 2 de agosto de 1941, descendente de libaneses. Ainda criança mudou-se com a família para Campo Grande. Formou-se em Filosofia e em Direito. Foi professora de escolas públicas e presidiu a ACP (Sindicato Campo-Grandense dos Profissionais da Educação Pública), onde lutou por vários direitos dos professores e pela realização de concurso para a categoria.

Nelly ingressou na política como vereadora pelo MDB.  Tinha como principais referências o ex-governador Wilson Barbosa Martins, o ex-prefeito da Capital, Plínio Barbosa Martins e Ulysses Guimarães, que presidiu a Assembleia Nacional Constituinte. Professora Nelly sempre foi filiada ao MDB, que fazia oposição à ditadura.

Enquanto vereadora, Nelly sempre visitava os bairros de Campo Grande e acompanha as demandas da população mais vulnerável. Uma das suas principais lutas era para que toda criança frequentasse a escola, uma cobrança que sempre fazia nas visitas às comunidades. Muitas vezes, levava as demandas diretamente ao prefeito e fazia discursos fortes no Plenário da Câmara para exigir providências.

Ela assumiu a prefeitura no lugar de Heráclito de Figueiredo, sendo nomeada interinamente no dia 14 de março de 1983. No período em que esteve à frente da Prefeitura, quitou quatro folhas de pagamentos dos servidores, que enfrentavam atrasos nos pagamentos. Outra medida foi a construção de galerias pluviais na Euler de Azevedo. No dia 20 de maio de 1983, o pecuarista Lúdio Coelho foi empossado prefeito e Nelly Bacha retorna à presidência da Câmara Municipal.

Como advogada, atendeu gratuitamente várias pessoas, principalmente em relação a causas trabalhistas. Nelly Bacha não disputou outros cargos na política, mas seguiu participando de campanhas.

O velório de Nelly Bacha segue até as 15 horas desta quinta-feira na Câmara Municipal. O sepultamento ocorre nesta quinta-feira, às 16 horas, no Cemitério Santo Antônio.

Milena Crestani
Assessoria de Imprensa da Câmara Municipal

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