O que já foi tradição em muitas famílias brasileiras hoje pode ser enquadrado como crime. No Sábado de Aleluia, era comum que crianças fossem punidas dentro de casa, em um costume ligado à cultura popular e à simbologia religiosa da Semana Santa. A prática, que atravessou gerações, perdeu espaço com o tempo, e hoje entra em choque direto com a lei.
A prática tem origem na chamada “malhação de Judas”, um ritual simbólico em que bonecos representando Judas Iscariotes, figura bíblica associada à traição de Jesus, eram queimados ou agredidos como forma de reprovação pública. Com o tempo, esse gesto simbólico acabou sendo adaptado dentro de algumas casas, onde virou também um momento de “correção” de crianças.
O que antes era visto como correção passou a ser interpretado como maus-tratos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que crianças e adolescentes devem ser protegidos de qualquer forma de violência física ou tratamento cruel. A chamada “Lei Menino Bernardo” reforçou esse entendimento, proibindo castigos físicos como forma de educação.
Para quem viveu essa realidade, a memória ainda é marcada por ambiguidade. A autônoma Joana Miranda, de 55 anos, conta que cresceu nesse contexto. “Eu já apanhei no Sábado de Aleluia. Na época, era normal, fazia parte da criação”, relembra.
Com o tempo, a visão mudou. “Depois que fiquei adulta, entendi melhor. Nunca condenei minha mãe. Era o jeito que ela aprendeu”, diz.
Hoje, ela mantém apenas um gesto simbólico da tradição. “Não faço isso com ninguém, mas ainda dou risca, mais pela lembrança mesmo”, afirma.
Especialistas apontam que a mudança reflete uma transformação mais ampla na forma de educar, com maior foco no diálogo e na proteção dos direitos das crianças.
O Sábado de Aleluia continua carregando significado cultural e religioso, mas práticas que envolvem violência ficaram no passado, ao menos do ponto de vista da lei.

