Enquanto os assaltos à mão armada seguem assustando a população, outro tipo de crime cresce silenciosamente em Mato Grosso do Sul e faz vítimas sem que os criminosos precisem sair de trás de uma tela: os crimes virtuais. Dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MS) mostram que, até 12 de maio de 2026, o Estado já registrou 4.193 casos de estelionato, número mais de cinco vezes maior que os 798 registros de roubo no mesmo período.
A diferença entre os índices revela uma mudança no comportamento criminoso. Se antes o bandido dependia de armas, violência física e abordagens nas ruas, agora o celular, aplicativos de mensagem e redes sociais se transformaram em ferramentas para aplicar golpes que causam prejuízos financeiros e emocionais em milhares de famílias.
Grande parte desses registros de estelionato está ligada a crimes virtuais. Entre os golpes mais frequentes estão o falso sequestro, clonagem de número de WhatsApp, golpe do PIX, falsas centrais bancárias e o chamado “falso advogado”: prática já denunciada em reportagem do Diário Sul-Mato-Grossense, em que criminosos se passam por profissionais da advocacia para enganar vítimas e exigir pagamentos indevidos.
Penas leves ajudam a impulsionar avanço dos golpes virtuais
Para o deputado estadual Coronel David e especialista em segurança pública, o avanço da tecnologia abriu espaço para uma nova dinâmica do crime no país. Segundo ele, o estelionato está diretamente ligado aos golpes digitais e se tornou mais atrativo para criminosos justamente porque oferece menor risco. “O estelionato sempre é um golpe. E por conta da utilização da tecnologia, principalmente do telefone celular, aumentaram muito os números desses crimes”, afirmou.
O parlamentar avalia que muitos criminosos passaram a enxergar os golpes virtuais como um caminho mais fácil do que os crimes tradicionais, como roubos à mão armada. “O bandido sempre vai pelo caminho mais cômodo para praticar o crime. No caso do estelionato, as penas são mais brandas”, declarou.
Pelo Código Penal Brasileiro, o crime de roubo, caracterizado pelo uso de violência ou grave ameaça, prevê pena de 6 a 10 anos de prisão. Em casos mais graves, quando a reação da vítima ou a violência empregada termina em morte, o crime passa a ser enquadrado como latrocínio, cuja pena varia de 24 a 30 anos de reclusão. Já o estelionato, enquadrado como obtenção de vantagem por meio de fraude ou enganação, tem pena de 1 a 5 anos de reclusão e multa. Casos de estelionato eletrônico (fraudes digitais) as penas variam de 4 a 8 anos.
O advogado Arlindo Muniz também defende que a ausência de punições mais severas acaba favorecendo a expansão do crime organizado, que tem migrado de delitos mais violentos para o estelionato, considerado de menor risco penal. “Enquanto o Judiciário não aplicar multas severas às empresas de tecnologia e responsabilizar instituições bancárias que mantêm contas utilizadas por golpistas sem a devida fiscalização, acaba contribuindo para esse cenário. O crime organizado percebeu que o golpe dá lucro, oferece menos risco e tem penas mais brandas”, destacou.
A análise acompanha um movimento observado por especialistas em segurança pública em todo o país: organizações criminosas têm diversificado suas formas de atuação e encontrado no ambiente digital uma oportunidade de lucro rápido, com menor exposição e menor possibilidade de confronto direto com as forças policiais.
Coronel David compara o cenário ao avanço do contrabando e de outros crimes financeiros, que hoje movimentam cifras bilionárias justamente porque oferecem menos riscos aos criminosos. “O Congresso Nacional precisa estar atento às mudanças trazidas pela tecnologia. As leis penais e processuais precisam acompanhar essa transformação para antecipar as ações criminosas e dar mais segurança ao cidadão”, defendeu.
Consequência do crime por trás da tela
Além dos prejuízos financeiros, os golpes virtuais deixam marcas profundas nas vítimas. Há casos de famílias que perdem economias de anos, idosos enganados por falsos atendentes bancários e pessoas que entram em desespero ao acreditarem em falsos sequestros envolvendo parentes.
O crescimento acelerado desse tipo de crime também acende um alerta para a necessidade de prevenção. Autoridades recomendam desconfiar de pedidos urgentes de dinheiro, evitar clicar em links desconhecidos, confirmar informações antes de realizar transferências e ativar mecanismos de segurança em aplicativos e contas bancárias.
Com os criminosos cada vez mais especializados em manipular emoções e explorar brechas tecnológicas, o combate aos golpes virtuais deixou de ser apenas uma questão policial e passou a ser um desafio coletivo de informação, prevenção e atualização das leis.

