Publicado em 30 abr 2026
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por Karina Medeiros de Lima •
Há 172 anos, D. Pedro II inaugurou o primeiro trecho da Estrada de Ferro Petrópolis, no Rio de Janeiro. De lá para cá, as linhas férreas vêm contribuindo para o desenvolvimento da economia de centenas de cidades brasileiras. Mas, além de impulsionar o crescimento, os trilhos desempenham um papel vital no desenvolvimento e fluxo migratório das regiões, na conexão das pessoas, além da formação da comunidade ferroviária nacional. Por décadas, as locomotivas vêm transportando não apenas cargas, mas também sonhos e histórias. Comemorado anualmente em 30 de abril, o ‘Dia do Ferroviário’, foi criado justamente para homenagear o trabalhador que participou ou ainda faz parte desse processo.
Os ferroviários foram uma das primeiras categorias organizadas do Brasil. Eles deram contribuições fundamentais para a conquista de direitos, que depois foram estendidos para os demais trabalhadores brasileiros.
Em um País com dimensões continentais, a atuação desses profissionais foi decisiva para integrar regiões esquecidas, desbravar rotas comerciais e aproximar povos e etnias. Mais do que responsáveis pela operação dos trens, eles participaram diretamente da construção do Brasil moderno. Para os pesquisadores, a ligação com os trilhos ultrapassa o exercício da profissão e se transforma em herança familiar, transmitida entre gerações.
Em Mato Grosso do Sul, a trajetória da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil ocupa papel central nesse processo. Criada em novembro de 1908, mais do que um corredor logístico, a ferrovia foi determinante para a ocupação estratégica do território, fortalecendo a presença brasileira nas regiões de fronteira e reduzindo riscos de invasões por parte dos países vizinhos.
Ao mesmo tempo, os trilhos impulsionaram o crescimento de vilas e centros urbanos que depois se consolidaram como pólos regionais. Entre eles estão: Campo Grande, Três Lagoas, Corumbá, Miranda, Água Clara, Sidrolândia, Maracaju e Ponta Porã. A circulação de pessoas e mercadorias acelerou o comércio, ampliou oportunidades econômicas e contribuiu para a formação de um estado mais conectado e integrado ao restante do País.
Para o arquiteto e escritor Bruno Ferreira, autor do livro Estações Ferroviárias – da linha tronco e do ramal Ponta Porã, a relevância da ferrovia não pode ser dissociada da atuação dos trabalhadores que a sustentaram.
Segundo o autor, o conceito de ferroviário vai muito além do maquinista ou do funcionário que picota bilhetes. Inclui todos os profissionais que garantem o funcionamento da engrenagem: trabalhadores das pedreiras que produziam a brita para os trilhos, responsáveis pelo tratamento dos dormentes, ferreiros, chefes e agentes de estação, policiais ferroviários e equipes de manutenção nos trechos.
“Quando a gente traz essa história dos ferroviários de volta para o presente, ela se mantém viva e emociona as pessoas. O papel da memória é justamente esse: manter viva uma história que, quando contada, deixa de pertencer apenas ao passado e volta a fazer parte do presente”, afirma.
Conforme Bruno, a preservação dessa memória ajuda a compreender não apenas a importância econômica das ferrovias, mas também seu impacto social e cultural. A história ferroviária segue relevante porque fala de pertencimento, de identidade e da construção coletiva de um território.
Esse legado também permanece vivo e intenso nas lembranças de quem viveu a rotina da ferrovia. Ex-maquinista da Noroeste do Brasil entre 1984 e 2009, Nelson Araújo guarda na memória o som do apito dos trens e as viagens exaustivas que marcaram sua carreira.
Filho, sobrinho e neto de ferroviários, Nelson descreve a profissão como uma missão familiar. “Todos que entravam na Noroeste tinham o objetivo de prestar um bom trabalho e se aposentar na ferrovia. Eramos uma família. Meu pai foi ferroviário, meu avô, meus tios. Tínhamos hora para sair, mas não para voltar. O ferroviário cumpria sua obrigação, mesmo diante das intempéries.”
Nas décadas de 1980 e 1990, jornadas de até 36 horas não eram incomuns, especialmente em operações de manobra e composição de vagões de carga. O esforço exigido era compensado pelo sentimento de missão cumprida.
Entre as lembranças mais marcantes, Nelson recorda com emoção o início de sua carreira, pouco depois da morte do pai, também ferroviário. Mas carrega também a tristeza do processo de privatização, em meados de 1995, quando colegas que planejavam encerrar a trajetória profissional na ferrovia acabaram demitidos.
“Aquilo mexeu muito com todos nós, porque os ferroviários sempre foram uma família”, resume.
Para o músico e historiador Moacir Lacerda, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, criada em 1908, foi um divisor de águas na identidade cultural de Mato Grosso do Sul.
Segundo ele, a ferrovia ajudou a moldar a sociedade sul-mato-grossense, impulsionando a urbanização e promovendo a interligação com São Paulo e outras regiões brasileiras. Foi pelos trilhos que chegaram ao estado diferentes grupos populacionais — nordestinos, mineiros, paulistas, além de imigrantes árabes, japoneses, paraguaios, bolivianos e italianos.
De acordo com Lacerda, toda essa diversidade foi decisiva para a formação da identidade regional. A ferrovia não apenas transportou passageiros e cargas, mas trouxe costumes e tradições que ajudaram a delinear o que viria a ser o Estado de Mato Grosso do Sul.
Texto: Alexsandro Nogueira
Fotos: Museu Ferroviário Regional de Bauru







