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Abuso de menina de 5 anos pelo próprio tio expõe violência silenciosa dentro das famílias

O abuso sexual de uma menina de 5 anos pelo próprio tio, em Corumbá, na última sexta-feira (15), escancarou uma realidade que especialistas classificam como a face mais cruel da violência infantil: o perigo, muitas vezes, está dentro da própria família. O caso ganhou ainda mais peso nesta segunda-feira (18), Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, durante o Debate Público Maio Laranja, realizado na Câmara Municipal, que reuniu autoridades, profissionais da rede de proteção e representantes da sociedade civil para discutir prevenção e enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes.

Segundo a Polícia Civil, a mãe da criança procurou a delegacia na noite de sexta-feira (15) para denunciar que a filha havia sido abusada sexualmente pelo próprio irmão dela, tio da menina. O crime teria ocorrido em uma venda próxima à residência da família. Uma testemunha percebeu a situação, retirou a criança do local e a entregou à mãe.

O suspeito foi localizado menos de 30 minutos depois, dormindo em estado de embriaguez em uma casa vizinha, e acabou preso em flagrante por estupro de vulnerável.

Debate Público foi realizado na Câmara Municipal, na manhã desta segunda-feira (18) / Foto: Câmara Municipal

Debate Público Maio Laranja

Enquanto o debate acontecia no plenário, o caso ocorrido três dias antes em Corumbá reforçava uma constatação que preocupa: a maior parte dos abusos contra crianças acontece dentro do ambiente familiar ou em círculos de confiança da vítima.

Durante o evento, o vereador Herculano Borges, idealizador da campanha Maio Laranja em Campo Grande, destacou justamente o perfil recorrente desses crimes. “Em torno de 80% dos casos de abuso sexual infantil acontecem dentro do ambiente familiar”, afirmou.

Segundo o parlamentar, o dado foi um dos fatores que motivaram a criação da campanha em 2017. “Quando a violência acontece dentro de casa, a criança perde justamente o lugar onde deveria encontrar proteção e segurança. Isso é o mais alarmante de tudo. O abuso sexual infantil não está distante da sociedade, ele está muitas vezes dentro das famílias. Por isso, o enfrentamento desse crime não pode ser responsabilidade de um órgão só. É dever da família, do poder público e de toda a sociedade proteger a infância”, afirmou Herculano.

A fala do vereador foi reforçada pela psicanalista, escritora e pesquisadora da infância Viviane Vaz, coordenadora do projeto Nova Transforma, que atua há quase 15 anos no acolhimento de vítimas de abuso e exploração sexual em Campo Grande.

Viviane afirmou que os relatos atendidos diariamente mostram que os abusadores costumam ser pessoas próximas da vítima, justamente aquelas em quem a criança deveria confiar. “É uma ferida que sangra, mas ninguém vê”, declarou ao descrever os impactos psicológicos deixados pela violência sexual infantil.

Segundo ela, o trauma provocado pelo abuso compromete o desenvolvimento emocional, social e cognitivo da vítima e pode gerar consequências permanentes na vida adulta, como depressão, ansiedade, culpa, dificuldade de relacionamento e perda da própria identidade. “O abuso não termina quando o ato termina”, afirmou.

Viviane também criticou a banalização das campanhas de conscientização e disse que o enfrentamento da violência infantil exige responsabilidade coletiva. “Todo mundo que tem acesso a uma criança e percebe sinais de violência se torna corresponsável quando se cala”, alertou.

O Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes é lembrado em 18 de maio em referência ao caso Araceli, menina de 8 anos assassinada em 1973 após sofrer violência sexual. O crime nunca foi punido e se tornou símbolo da luta pela proteção da infância no país.

O debate realizado nesta segunda-feira deixa como mensagem que o enfrentamento da violência sexual infantil depende de denúncia, vigilância e atuação conjunta da sociedade. Pois, muitas vezes, o agressor não está distante da vítima. Está dentro da própria família.

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