Idoso guardava retorno da agência sobre investimento quando recebeu ligação fraudulenta e fez duas transferências bancárias.
Um bancário aposentado de 83 anos perdeu quase R$ 400 mil após ser vítima do golpe do falso gerente, em Campo Grande. O caso aconteceu em dezembro do ano passado e levou o idoso à Justiça para tentar reaver o prejuízo.
Em ação movifda pela vítima, consta que tudo começou no dia 4 de dezembro quando ele recebeu uma ligação de um homem que se apresentou como gerente do Banco Bradesco, instituição onde mantém conta corrente há anos. O detalhe que tornou o golpe ainda mais convincente é que, dois dias antes, o aposentado havia ido até a agência para tentar a liberação de um investimento e foi informado de que o procedimento não poderia ser concluído imediatamente, por depender de trâmites burocráticos que levariam cerca de dois dias. Era justamente esse retorno que ele aguardava.
Nome do gerente apareceu no telefone
Ainda de acordo com o processo, ao receber a ligação, o aposentado viu no aparelho o nome do gerente, que já estava salvo em seus contatos. Isso reforçou a impressão de que falava com o funcionário da agência. No entanto, o aposentado não sabia o número do telefone do banco e confiou no contato porque já esperava uma resposta sobre a tentativa de liberação do investimento feita dois dias antes.
A ação na justiça afirma que o interlocutor demonstrava conhecer informações da conta, incluindo dados bancários e saldo disponível, o que aumentou a credibilidade da fraude.
Mais de uma hora ao telefone
O telefonema durou mais de uma hora. Nesse período, o falso gerente afirmou que teria havido uma transferência indevida na conta corrente do aposentado e, sob o pretexto de cancelar ou evitar a suposta fraude, passou a orientar uma série de procedimentos.
Convencido de que falava com o gerente verdadeiro, o idoso seguiu as instruções recebidas por telefone e acabou realizando duas transferências. A primeira foi de R$ 299,9 mil e a segunda, de R$ 94 mil. Juntas, as operações somaram R$ 393,9 mil.
Segundo o advogado Fabrício Felini, o aposentado acreditava que estava protegendo a própria conta bancária e tentando impedir movimentações indevidas.
Filha também caiu no golpe
Quando a filha do aposentado chegou em casa, ela também acabou envolvida na fraude e realizou uma transferência de R$ 30 mil ao golpista. A suspeita só surgiu quando o homem, ainda ao telefone, pediu que os dois fossem até a agência e perguntou que roupas estariam usando e em qual carro chegariam. Foi nesse momento que a filha desconfiou e desligou a chamada.
Assim que a ligação terminou, o aposentado acessou o aplicativo do banco e viu que as duas transferências já haviam sido realizadas.
Além disso, segundo o processo, também havia sido solicitado um empréstimo pessoal em nome dele, sem autorização. O valor, no entanto, não chegou a ser liberado porque ainda dependia de análise de crédito. Ou seja, além do dinheiro transferido, ainda havia tentativa de ampliar o prejuízo.
Agência teria informado que fraude já era conhecida
Depois de perceberem o golpe, o aposentado e a filha foram até a agência bancária para falar diretamente com o gerente. No local, segundo a ação judicial, o funcionário informou que o cliente havia sido vítima de fraude e ainda teria dito que a instituição já sabia que criminosos estavam “espelhando” o número do celular dele para se passar por gerente e aplicar golpes em clientes. Esse ponto passou a ser central no processo.
A defesa sustenta que, se a instituição já tinha conhecimento desse tipo de fraude, deveria ter adotado mecanismos mais eficazes de prevenção e proteção aos clientes.
Caso foi parar na Justiça
Após tentar resolver a situação diretamente com a agência, sem conseguir a devolução dos valores nem uma solução efetiva, o aposentado decidiu recorrer ao Poder Judiciário.
Segundo o advogado Fabrício Felini, também foi feita uma notificação extrajudicial ao banco, mas não houve resposta.
A tese da defesa é que os dados usados para tornar o golpe convincente teriam saído da própria instituição financeira, o que, segundo o advogado, torna o banco responsável pelos danos sofridos pelo cliente.
Banco não comenta ação judicial
Procurado, o Banco Bradesco informou que, por questão de sigilo bancário, não comenta ações judiciais.
O caso expõe um tipo de fraude cada vez mais sofisticado, em que criminosos se aproveitam da confiança do cliente no banco, do conhecimento de dados pessoais e do momento exato em que a vítima espera contato da instituição.
Neste episódio, o que transformou o golpe em uma armadilha quase perfeita foi justamente a coincidência entre a ida do aposentado à agência, o prazo informado para retorno e a ligação fraudulenta feita exatamente quando ele aguardava uma resposta oficial.

