Desenvolvida por servidores do Detran-MS, a inteligência artificial JARIÁ começou como uma solução criada por um analista de sistemas de Aquidauana para enfrentar o excesso de processos administrativos e agora se tornou uma ferramenta oficial do órgão. Lançada nesta semana, a tecnologia promete acelerar a análise de recursos de trânsito e reforça o protagonismo de Mato Grosso do Sul na aplicação da inteligência artificial à gestão pública.
A ferramenta foi desenvolvida para auxiliar os julgamentos realizados pelas Juntas Administrativas de Recursos de Infrações (Jari), responsáveis pela análise da segunda instância administrativa dos processos de trânsito. A proposta é dar mais agilidade à tramitação dos recursos sem substituir a atuação humana, já que a decisão final continua sendo tomada pelos membros das juntas.
O lançamento ocorreu em Aquidauana, município onde nasceu a ideia que deu origem ao projeto. A escolha da cidade teve um significado especial. Foi ali que o servidor do Detran-MS e analista de sistemas Tony Luiz Lemos da Silva começou a estudar maneiras de utilizar a inteligência artificial para otimizar a rotina de trabalho e enfrentar a crescente demanda de processos.
Segundo ele, a iniciativa surgiu a partir de uma necessidade vivenciada no dia a dia. Na época, além das atribuições profissionais, conciliava estudos e a internação do filho, cenário que o levou a buscar alternativas para tornar as análises mais eficientes. “Muitas vezes era preciso utilizar noites, finais de semana e momentos que poderiam ser dedicados à família para conseguir atender a demanda de processos. Foi aí que comecei a estudar formas de utilizar a inteligência artificial como ferramenta de apoio”, relatou.
A proposta chamou a atenção da direção do Detran-MS e recebeu apoio institucional para ser aprimorada. A partir desse trabalho foi criada a Defesa Prévia Inteligente (DPI), sistema voltado à análise da primeira instância recursal, etapa que ocorre antes da aplicação definitiva da multa.
A iniciativa alcançou reconhecimento nacional. Em 2026, o Detran-MS conquistou o primeiro lugar na categoria Eficiência Administrativa, Desburocratização e Melhoria de Processos durante a ExpoGov Brasil, considerada uma das principais premiações voltadas à inovação na gestão pública.
Agora, a experiência acumulada com a DPI serviu de base para a criação da JARIÁ, ferramenta que passa a atuar na segunda instância administrativa dos recursos de trânsito.
Durante o lançamento, o diretor-presidente do Detran-MS, Rudel Trindade, destacou que a tecnologia surge para enfrentar um dos principais desafios da administração pública: o grande volume de processos e a necessidade de garantir respostas mais rápidas aos cidadãos. “Não podemos perder um recurso por falta de processamento. Além do prejuízo administrativo, os recursos provenientes das multas são destinados legalmente para educação, engenharia e fiscalização de trânsito”, afirmou.
De acordo com o dirigente, a utilização da inteligência artificial também contribui para evitar prescrições processuais e ampliar a eficiência operacional do órgão.
Inicialmente, a JARIÁ será utilizada pela 5ª Jari, em Aquidauana. A expectativa é que a ferramenta seja expandida gradativamente para as demais juntas existentes no Estado. Atualmente, Mato Grosso do Sul possui seis Juntas Administrativas de Recursos de Infrações, distribuídas entre Campo Grande, Dourados, Três Lagoas, Aquidauana e Coxim.
A nova tecnologia foi desenvolvida para auxiliar relatores e membros das juntas na elaboração das análises processuais, organizando informações, identificando precedentes e oferecendo suporte técnico durante a avaliação dos recursos.
Para Tony Luiz Lemos da Silva, a inteligência artificial deve ser vista como uma aliada dos servidores públicos. “Não se trata de substituir pessoas. A inteligência artificial nos ajuda a ganhar tempo, organizar informações e oferecer mais eficiência ao trabalho realizado pelos servidores”, destacou.
A presidente do Conselho Estadual de Trânsito (Cetran-MS), Regina Maria Duarte, também participou do lançamento e ressaltou a importância da inovação para os órgãos responsáveis pelo julgamento de recursos.
Segundo ela, o Conselho analisa cerca de 600 processos por mês, muitos deles extensos e complexos, realidade que reforça a necessidade de ferramentas capazes de acelerar as análises sem comprometer a segurança jurídica das decisões. “Quando vemos uma ferramenta como essa, enxergamos uma oportunidade real de transformação”, afirmou.
Regina também defendeu que a experiência seja ampliada futuramente para o próprio Cetran-MS, responsável pela terceira e última instância administrativa dos recursos de trânsito. “É um projeto único no Brasil. Tenho certeza de que essa experiência será levada para todo o país como referência de inovação na gestão pública”, ressaltou.
A expectativa do Detran-MS é que a experiência bem-sucedida da JARIÁ permita, no futuro, ampliar o uso da inteligência artificial para outras etapas dos processos administrativos. O objetivo é consolidar Mato Grosso do Sul como referência nacional na utilização de tecnologia para tornar os serviços públicos mais eficientes, ágeis e acessíveis à população.
Com informações do Detran-MS
