InícioCotidianoTJMS detecta comandos ocultos em petições e cria ferramenta contra manipulação de...

TJMS detecta comandos ocultos em petições e cria ferramenta contra manipulação de IA

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) passou a adotar novas medidas de segurança voltadas ao uso da inteligência artificial no ambiente judicial. A iniciativa foi motivada após a identificação de comandos ocultos de prompt injection em petições eletrônicas enviadas por um escritório de advocacia de Campo Grande, acendendo o alerta para tentativas de manipulação de sistemas baseados em IA.

Para enfrentar esse tipo de situação, a Secretaria de Tecnologia da Informação (STI) do tribunal desenvolveu uma ferramenta capaz de detectar estruturas suspeitas inseridas em peças processuais.

O chamado prompt injection ocorre quando comandos ocultos são inseridos em textos enviados a plataformas de inteligência artificial. Na prática, essas instruções podem influenciar respostas automatizadas, alterar interpretações ou fazer com que sistemas ignorem parâmetros previamente definidos.

O tema é abordado no artigo “Prompt Injection no Judiciário: Um Tema à Espera de Enquadramento Penal”, de autoria do desembargador Odemilson Roberto Castro Fassa, coordenador do Comitê de Governança e Ética para o Uso de Inteligência Artificial no TJMS e pós-doutorando pela Universidade de São Paulo (USP).

No artigo, o magistrado chama atenção para os impactos que esse tipo de prática pode causar à credibilidade do sistema de Justiça e à integridade do processo eletrônico. Segundo ele, o tema ainda demanda maior amadurecimento jurídico e jurisprudencial no país.

“A conduta é, em verdade, pluriofensiva: atinge patrimônio, administração da Justiça, integridade de sistemas públicos e confiança na jurisdição. Definir como o direito penal brasileiro responderá a essa nova fronteira da litigância algorítmica predatória é debate que ainda está por ser feito e que merece análise aprofundada antes que os primeiros julgados consolidem entendimento sem o devido amadurecimento doutrinário”, escreveu o desembargador.

Fassa também avalia que as punições atualmente aplicáveis ao uso de prompt injection são insuficientes. Hoje, as consequências se limitam, em regra, a multas processuais e a medidas disciplinares da OAB, como suspensão. Para o magistrado, a ausência de responsabilização penal efetiva cria um cenário preocupante, especialmente em ações de alto valor, nas quais os possíveis ganhos obtidos com a fraude podem superar os riscos de punição.

A ferramenta desenvolvida pelo TJMS atua de forma preventiva, analisando padrões incompatíveis com a estrutura comum de documentos jurídicos e auxiliando na identificação de possíveis tentativas de interferência em sistemas inteligentes. A iniciativa integra as ações voltadas à segurança digital e ao uso responsável de novas tecnologias no Judiciário sul-mato-grossense.

“A evolução das tecnologias exige atenção permanente do Poder Judiciário não apenas às possibilidades trazidas pela inteligência artificial, mas também aos riscos relacionados ao uso inadequado dessas ferramentas”, afirma a diretora da área, Liriane Nogueira.

“O desenvolvimento interno dessa ferramenta demonstra a preocupação institucional do Tribunal em antecipar desafios e preservar a confiabilidade dos sistemas utilizados no ambiente processual”, completa.

Com a nova ferramenta, o TJMS amplia o monitoramento de possíveis tentativas de manipulação de sistemas de inteligência artificial utilizados no ambiente processual, acompanhando um debate que começa a ganhar espaço no Judiciário brasileiro diante do avanço dessas tecnologias.

Apesar da disponibilização do detector de prompt injection, o tribunal ressalta que a medida mais eficaz para evitar esse tipo de risco continua sendo a supervisão humana. O TJMS reforça que os sistemas de IA funcionam apenas como ferramentas de apoio e que os atos decisórios permanecem sob responsabilidade exclusiva dos magistrados, com revisão obrigatória das informações produzidas pelas plataformas.

Entenda o caso

No episódio identificado pelo TJMS, os comandos ocultos estavam inseridos em fonte branca dentro das petições eletrônicas, tornando-se invisíveis em uma leitura convencional do documento. As instruções eram direcionadas a sistemas de inteligência artificial generativa e buscavam induzir respostas favoráveis a uma determinada tese jurídica. O caso reforçou a necessidade de mecanismos preventivos capazes de detectar esse tipo de interferência em ambientes digitais do Judiciário.

Matérias relacionadas

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui